Essa não é uma estória.
Na verdade, essa não é uma estória de forma alguma. É um conto. É um relato.
Ela cansou-se. Estava estafada daqueles que tanto prometiam e nada cumpriram e foram embora sem se despedir. Há um tempo atrás aprendera com sua avó que tudo na vida tinha seu tempo, e que tudo para esse plano havia uma razão. Mas não compreendia por que para ela tudo era tão complicado e vil como parecia. Os pássaros cantavam alto céu acima dançando livres em sua natureza. Ela deitou sobre a imensidão verde e fechou os olhos e projetou o espírito para aquele lugar deixando o corpo descansado na grama. Flutuou para cima de uma árvore alta e sentou-se observando o resto das coisas. Aprendera também com a avó que tudo nessa vida é igual. Mas não igual em essência. E sim igual em intenção. Em missão. Mas como tantas outras coisas, ainda não compreendia. Inspirou o cheiro da água que delineava um pequeno rio à metros dali e viu que o amor e o ódio eram a mesma coisa. O que é o amor? Perguntou-se. E o que será o ódio? Permitiu-se questionar uma segunda vez. O amor - Respondeu ela - É todo sentimento. É a unidade. E o ódio também. Ela acreditou então que o ódio era o amor em sua forma negra. E entendeu então que era como se fossem duas realidades. Uma o oposto da outra, mas não deixavam de ser iguais. Meditou então por mais alguns minutos. E tomou uma decisão. Pairando no ar desceu até encontrar seu corpo imóvel no gramado e acoplou-se a ele novamente. Ainda um pouco desnorteada, algo normal após uma projeção, levantou e andou. Ela nunca havia chego a tal epifania. Ao descobrir por si que o amor e o ódio, assim como todas as coisas, são iguais, não viu mais motivo para estar ali, e então caminhando por todo aquele verde ela voltou ao cinza de sua civilização. Agora muito mais pronta a encarar os outros. E ainda mais pronta para parar de fugir do que a afligia. Ela deixou o campo. Deixou aquele lugar de paz que era seu refúgio por tanto tempo. E então aquele lugar foi ocupado por outros que precisavam daquele lugar tanto quanto ela, e que assim como ela, saberiam um dia o que lhes era permitido e preciso saber.
The Sea - Corinne Bailey Rae (para ouvir)
