Justificativa. Não. Uma iniciativa desenfreada e moderadamente insensata e sem razão. Até porquê não havia justificativa alguma ali. Eu pinto o seu rosto na tela bege presa à madeiras de suporte que até hoje não sei o nome e fico imaginando que talvez hoje não seja esse mesmo sorriso, que exponho nessa pintura amadora, que você exibe quando anda pela rua. Na verdade eu nunca saberei. E talvez eu nem queira, só para me polpar em fazer outra pintura com sua verdadeira face. Prefiro guardar essa na qual os pincéis sujos delineiam tão levemente e faz a sua figura dançar dentro dos meus olhos, cabeça e mente. Eu sei que você está com outro alguém. Usando uma aliança prateada e consideravelmente grossa em seu dedo anelar direito e que seu novo par parece ser mais atraente do que eu porém menos sensível. Eu sei, mas não queria te dizer. E nem quero.
Hoje estou afastada da condição de pessoa que pode amar ou gostar de alguém; isso para mim se tornou muito vago. Prefiro o canto solitário e harmônico de um coração que só tem a si para contar do que o coral de brigas que se fazia som com nossos devaneios desnecessários e constrangedores. Eu fiz canções novas em violões antigos e fiz nova história em cima das bonitas músicas feitas para você. Isso não apaga o que houve no passado mas faz com que fique agradável aos ouvidos. Não sei definir se foi bom ou ruim para mim. Na verdade hoje eu não sei mais de nada, acho tudo muito inviável, acho que nada mais vale a pena em relação a ter alguém. Quem sabe a vida muda tudo o que penso enquanto menina de dezessete ou simplesmente confirma minha teoria eremita de seguir a vida. Nunca se sabe qual dos lados da moeda irá cair, então cabe a mim esperar. Enquanto eu termino o sombreado que seu nariz faz quando seus dentes claros que chega a cegar aparecem quando sorri, penso que quero você de fato feliz. Ora, eu sei que já fui egoísta, mas como mudei para certas coisas mudei para isso também. Se não se importa, é claro. As mariposas que estavam descansando na minha cabeça bateram asas novamente para tentar escapar do caos que está se tornando isso aqui. Não as culpo, coitadas. Mas eu preciso delas, elas mostram com seu frenético modo de tentar fugir que devo parar, raciocinar mais uma vez e ver que estou fazendo errado, de novo.
As coisas lá fora estão ficando cada vez maiores, e as vezes me assusto com as proporções que certas situações tomam de fronte a tantas coisas perdidas e jogadas pelo chão. Cartas, músicas e fotografias amareladas de nossos antepassados sendo substituídas pelo colorido das nossas memórias, pelo o que deixamos para trás, e que um dia ficará exatamente como as que estão sendo trocadas aqui. Estamos deixando uma trilha, um caminho e um seguimento. E quem passará por aqui verá que tanto fui feliz e tanto sofri como qualquer outro ser que viva esse emaranhado de particularidades chamado vida. E convenhamos, vida é algo muito vago. "Caminho para o eterno" é melhor, dura mais, parece mais certo. "Vida" assusta, machuca e distrai. O caminho a gente segue, haja o que houver. E se você não quiser parar, não há quem te pare, e se você quiser tentar, ninguém vai entrar na sua frente. E eu sei o quanto você está fazendo isso. E me orgulho disso, sinceramente. A força maior que rege essa vida sabe o quanto quero saber das coisas boas que se passam por ai. Mesmo eu sabendo que jamais saberei. E o que me resta não é lamentar em um quarto com tintas e telas, nem chorar ouvindo as músicas que eram nossa trilha, e sim olhar para o céu laranja que emoldura a minha visão me levando ao mais longe do horizonte e o mais perto de mim, de novo e de novo até eu acabar de ver o seu rosto reluzir para mim com os cachos opacos do seu cabelo, nariz pontudo e a fala que no retrato me parece muda, mas que diz tudo para mim. Você é dela, e eu quero que corra. E rápido. Ela te espera, assim como eu esperei, mas não do mesmo jeito, e sim diferente e eu sei que ainda verá nos olhos dela o meu jeito que está sempre querendo-te todo o bom e possível bem. Porque o caminho a gente segue, e a gente vive, a gente se alinha a ele, haja o que houver.
