Eu tentava fugir naquela noite lúgubre, com a garganta intumescida de tantas coisas que eu não havia dito, mas o meu profundo desejo era ficar, porque longe da tua presença eu era algo inútil, portanto desvaneceria se não o tivesse comigo. Me sentia culpada por ser tão dependente do seu beijo cálido, que me abrasava todas as vezes em que me rendia aos teus encantos, mas eu escolhi partir pra não despejar nas tuas costas toda a dor que me cerrava o peito. Escolhi virar as costas, trêmula e desestimulada, mas deixando transparecer nos meus olhos toda a dor dos meus atos, até você me ver desaparecer na vertigem do tempo. Eu pude escutar de longe o teu gemido e meu corpo pulsou ao sentir a sua dor, porém não deixaria que aquilo tomasse conta das minhas decisões, pois eu havia passado muito tempo me preparando pra chegada desse momento, onde os sentimentos não seriam mais um só e os motivos pra ficar já teriam se tornado obsoletos. Se eu não nos libertasse dessa muralha, talvez nunca soubéssemos o que é a real entrega ao acaso, nem saberíamos o que é amor intenso, dos mais celestiais, aquele que prova para o mundo que o abandono pode ser coragem e forma de proteger o outro. Eu o observo caminhar pela vila, totalmente estarrecido e desprezado pela noite, procurando subterfúgios para se defender do amor, de mesmo modo procurando-o para se defender de mim.
